23 de fevereiro de 2006

Escrevo muito
Escrevo nada
Escrevo e penso
No que pensava
E então escrevo
Igual
Penso de novo...
Parece enterro...
Sento e escrevo.

Escrevo de medos
secretos
segredos
escrevo à ti
à mim
extasiada

..........................

Auto-palavras.
respiro por letras,
por fatos,
por símbolos.
Exorciso no texto
tudo aquilo que é intruso
nos atos-pedaços-pessoas
da minha peça de teatro.

escrevo aqui
ali
como como.
i am what i see.

i am what i reflect in every single thing

i am that




i am what i see in the mirror of things
O QUE É SÉRIO PRA UNS NÃO É SÉRIO PARA OUTROS; OS DETALHES PODEM SER PLANETAS, E OS PLANETAS PODEM SER DETALHES - OS DETALHES NÃO SÃO SÓ DETALHES.


O DIABO MORA NOS DETALHES.

26 de janeiro de 2006

sofisticalizo-me na trans ânsia.
caleidoscopo minha sentir.
ampla veia
véia loca.
ocoziono o hormônio.
surtarâmelos reagem - dentro e fora - anti.

negro.
branco.

eu sei que vou te amar

eu sei que vou te amar
des esperada mente
vou te amar
psico logica mente
sei que vou te amar
assim
vou te amar
desde já desde agora
não tenho forças pra não te amar agora
preciso nossa senhora
assim
vou te amando
enquanto não chegas
vou te criando

10 de dezembro de 2005

o quadrado

era uma vez um paulista que sentiu que sua vista estava muito estranha, enquadrando formas orgânicas compulsivamente, sem conseguir mais entender a água, nem absorver a visualidade das nuvens, muito menos contactar a sutileza da liberdade humana. Compreender as disformes verdades psicológicas, sociológicas e antológicas dos seres humanos lhe parecia algo tão distante e impossível quanto arredondar um prédio. Se algo é volúvel, esse algo não há. Se algo se transforma, esse algo não. Se algo nao possui cor definida, não pode essa cor.

o paulista ficou na sua kitinete, observando o teto quadrado, a tela da tv, a janela retangular, o armário e suas portas, os tacos no chão, a própria imagem no espelho (que enquadrava sua organicidade em um suporte translúcido), o banheiro, apertado... sentia-se sufocado. sufocado por quadrados. cubos. retângulos. ângulos. pontuais. retos. concretos. sabia, misteriosamente, e com uma certeza nunca antes experimentada, que algo estava errado. precisava retomar. relembrar.

estava preso num quadrado.

chorou intensamente, sem fazer barulho. sentir não é muito linear. aquilo não podia ser. um homem, nos tempos atuais, onde esclarecimento já é coisa obsoleta... a gota de sal intimidou o paulista. secava as lágrimas com a mesma angústia com que as produzia. percebia que suas hemorróidas lhe doíam. chorava mais. com tanta tecnologia, binômios, e trilogias, hemorróidas.
depois, chorou mais, de vergonha, pois, afinal, por que assumir.

observava suas roupas perfeitamente enquadradas em seu armário. sentia aflição em imaginar que alguma delas poderia estar se amassando. frio na espinha. lembrou-se do seu ambiente de trabalho. andar alto, em um prédio bonito, na concepção paulista. divisórias sintéticas, parciais, para que, assim, o chefe mantenha todos os quadrados sobre controle. as gravatas, perfeitas. impecáveis. tudo na kitinete estava em seu exato lugar.

cidade-hemorróidas.

da janela, via prédios. prédios. prédios. a perder de vista. para esquerda e para direita, para frente e para trás. linhas. linhas. no mais longínquo plano, via o cinza dos prédios fundir-se ao cinza do céu. imaginou-se em uma grande caixa cinza, que a noite se transformava em preta. camada de ozônio. ausência de corpos. excesso de regras. quadrado viver.

teve uma crise de falta de ar. usou sua bombinha de asma.

saiu às ruas. observou os corpos. irritou-se com as cores. demasiadas cores! seres humanos, pensou, que infâmia. e andou. andou. andou. viu carros, plantas, pessoas, comidas industrializadas, céu nublado. objetos. objetos. objetos. percebeu-se angustiado com a presença de mulheres, velhos que falavam alto, gays felizes e escandalosos, homens esteticamente alternativos, vendedores irreverentes, crianças excitadas com a existência geral das coisas, freiras com sapatos vermelhos, e, as vezes via meninos que não suportava (ou eram meninas?). cansava do fato de que as gentes não andavam em linha reta. faziam curvas. inventavam movimentos, direções. gargalham sozinhas e param sem avisar. executam performances. gritam. surtam. trombou seu corpo endurecido em diversos outros corpos. impacto ambiental. ilógico.

não.
não.
não, pensava.

(mas negar algo não anula sua existência).

seu suor mudou de teor.
o paulista sonhava em alinhar a cidade ao seu sistema filosófico.
tudo.
todos.
enquadrar o círculo.

voltou para sua kitinete.